Arminius e a Doutrina da Graça Preveniente
Jesse Owens
(traduzido do inglês por: Kenneth Eagleton)
20 de agosto de 2012
Em seu recente ensaio, Jackson Watts nos lembra de que Arminius afirmou categoricamente a depravação e perversidade total da vontade humana após a queda. Os Reformadores Magisteriais não eram os únicos a afirmá-lo. Arminius também cria na escravidão da vontade humana após a queda:
Portanto, se “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Co 3:17); e “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8:36), segue-se que a nossa vontade não é livre desde a primeira queda. Isto é, não é livre para o bem, a não ser que se torne livre pelo Filho através do Espírito [1].
Apesar de Arminius ser constantemente mal interpretado, talvez fosse mais correto dizer que ele é mal compreendido porque suas obras quase não são lidas – inclusive por arminianos. Estas más compreensões dizem respeito especialmente ao seu ponto de vista quanto à depravação humana e ao papel da graça preveniente na salvação. Neste ensaio vou analisar algumas das obras chaves de Arminius com respeito à graça preveniente e o seu papel na salvação da humanidade decaída. Começaremos com uma definição de termos.
Definindo “Graça Preveniente”
Arminius usou com frequência o termo “preveniente”. Ao definir graça preveniente, Arminius fez questão de distinguir seu ponto de vista daquele do infame monge britânico, Pelágio. Eis um exemplo: “Que não seja dito de mim, como o foi de Pelágio que pratico engano com relação à palavra ‘graça’, aquela graça de Cristo e que pertence à regeneração” [2].
Robert E. Picirilli explica que a palavra “preveniente” significa “antecipando, indo à frente ou que precede” (ênfase dele) [3]. Picirilli ainda explica: “O que Arminius quis dizer com ‘graça preveniente’ é que a graça precede a regeneração e que, exceto quando é resistida até o fim, inevitavelmente leva à regeneração” [4]. Portanto, graça preveniente é aquela que precede, capacita e leva à regeneração.
A necessidade da graça preveniente para a salvação
Apesar do que dizem muitos calvinistas (e até alguns arminianos), Arminius nunca ensinou que o homem poderia “escolher a Deus” e achar salvação sem nenhuma ajuda. Veja com que claridade Arminius escreveu: “É totalmente certo que nada de bom pode ser realizado por qualquer criatura racional sem esta ajuda especial da Sua graça” [5]. E ainda: “O livre arbítrio do homem para com o verdadeiro bem não está apenas ferido, mutilado, enfermo, distorcido ou enfraquecido; mas está também preso, destruído e perdido” [6]. Mais uma vez: “Ao que concerne graça e livre arbítrio, isto é o que ensino de acordo com as Escrituras e com o consentimento ortodoxo: o livre arbítrio é incapaz de começar ou melhorar qualquer verdadeiro bem espiritual sem a graça” [7]. Arminius declarou sem hesitação e sem se desculpar que a humanidade é totalmente incapaz (e não tem o desejo) de se salvar sem a graça preveniente em Cristo.
Encontramos sentimentos similares nos ensinos dos Remonstrantes (seguidores de Arminius). Apesar de não terem sempre devidamente representado as posições de Arminius nos seus ensinos, também afirmam a necessidade da graça preveniente na salvação:
O homem não possui graça salvadora em si mesmo, nem na energia do seu livro arbítrio, estando em seu estado de apostasia e pecado, nem pode de ou por si mesmo pensar, desejar e nem fazer qualquer coisa que seja verdadeiramente bem (como eminentemente é a fé salvadora); mas é necessário que nasça de novo de Deus em Cristo, através de seu Espírito Santo, e seja renovado em seu entendimento, inclinações ou vontade e em todos os seus poderes para que possa corretamente compreender, pensar, desejar e efetuar o que é verdadeiramente bom [8].
Não deve mais permanecer nenhuma dúvida quanto às afirmações de Arminius com relação à necessidade da graça preveniente na salvação. Mas como funciona exatamente esta graça preveniente dentro do ser humano para trazê-lo à salvação?
O papel da graça preveniente na salvação
Como já mencionamos, o ser humano é incapaz de se salvar (e nem o deseja) sem a obra sobrenatural do Espírito. Este estado de desespero leva muitos calvinistas a concluírem que a regeneração deve preceder a fé na salvação. No entanto, esta não é a conclusão de Arminius: “É esta graça que opera na mente, nas emoções e na vontade; que infunde bons pensamentos na mente, inspira bons desejos em suas ações e dobra a vontade para executar os bons desejos. Esta graça precede, acompanha e segue” [9].
Portanto, graça preveniente inclui uma infusão de bons desejos e pensamentos na mente ao mesmo tempo em que dobra a vontade.
Mas esta graça realiza ainda mais. Ela também produz a capacidade de exercer o dom gratuito de Deus: fé. Mas esta graça está ao alcance de todos? Arminius diz: “não”. Arminius escreve: “Isto [a graça] é efetuado pela Palavra de Deus. A persuasão é efetuada externamente pela pregação da palavra e internamente pela operação, ou melhor, a cooperação do Espírito Santo para que a Palavra possa ser compreendida e apreendida pela fé verdadeira” [10].
Portanto, de acordo com Arminius, a salvação não está à disposição de toda a humanidade. A salvação só está disponível para aqueles que ouvem o evangelho. No entanto, este evangelho deve ser acompanhado da graça preveniente de Deus que é capaz de despertar os que estão espiritualmente mortos, dobrando a vontade de homens totalmente pecadores e atraindo-os ao dom gracioso de salvação através da fé.
Você poderia perguntar: “Mas esta fé não seria um tipo de obra”? De acordo com Arminius, não. Arminius explica que é “produzido em nós pelo dom gratuito de Deus” [11]. Arminius afirma ainda: “Eu atribuo à graça o começo, a continuação e a consumação de todo bem. Creio que a sua influência é tanta que mesmo um homem já regenerado não pode conceber, querer, nem fazer nenhum bem” [12]. E finalmente, concernente à “imputação da fé”:
A palavra “imputar” significa que fé não é justiça em si mesma, mas é graciosamente considerada justiça… Mas esta graciosa condescendência e apreciação não acontece sem Cristo, mas referindo-se a Cristo, em Cristo e por causa de Cristo, a quem Deus designou propiciação pela fé no seu sangue. Portanto, eu afirmo que fé é imputada a nós para justiça por causa de Cristo e sua justiça… É por isto (o fato de que Deus considera que a justiça de Cristo foi realizada para nós e para o nosso benefício) que Deus imputou a nós a justiça pela nossa fé, que tem Cristo e sua justiça como seu objeto e fundação e a razão pela qual nos justifica por fé, de fé ou pela fé” [13].
Arminius rejeita absolutamente a noção de que esta fé é de alguma forma uma obra meritória.
Conclusão
Quando mais apuradamente examinadas, as obras de Arminius revelam algo diferente daquilo que poderíamos esperar. Arminius certamente não era um teólogo de segunda classe. Apesar de diferente da maioria das caricaturas que se faz de Arminius, ele sem dúvida afirma a depravação total da humanidade assim como a necessidade da graça preveniente sobrenatural na salvação. Por isso, não deve haver nenhuma hesitação em colocar Arminius e o arminianismo clássico no centro da teologia da Reforma. Arminius foi bem treinado, estava maravilhado e totalmente convencido pela doutrina da graça – isto é, a graça preveniente. Como último ensaio neste mês de ênfase em Arminius, na próxima semana consideraremos seu ponto de vista relativo à santificação.
Fonte: Helwys Society Forum (traduzido com permissão)
http://www.helwyssocietyforum.com/?p=2566
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Notas:
1 John D. Wagner ed. Arminius Speaks: Essential Writings on Predestination, Free Will, and the Nature of God (Eugene, OR: Wipf & Stock, 2011), 5.
2 Wagner, 376
3 Robert E. Picirilli, Grace, Faith, and Free Will: Contrasting Views of Salvation: Calvinism & Arminianism (Nashville: Randall House, 2002), 153.
4 Picirilli, 153
5 Wagner, 93
6 Wagner, 3
7 Wagner, 376
8 Philip Schaff, The Creeds of Christendom (Grand Rapids: Baker, 1966), III 545-549.
9 Wagner, 376-377
10 James Arminius, “A Declaration of the Sentiments of Arminius,” Works, III 334.
11 Arminius, III 315
12 Arminius, I 253
13 Wagner, 378
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